terça-feira, 6 de novembro de 2007

O D-us polifacético do Judaísmo


Um dos temas que tem prevalecido ao longo dos últimos dois mil anos como eterno ponto de controvérsia entre judeus e cristãos diz respeito à repulsa dos judeus diante da Doutrina da Trindade, a explicação da teologia cristã para conjugar a Unicidade de Deus com a divindade de Jesus Cristo. O judeu devoto, tanto do passado como do presente, que todos os dias treme ao recitar “Shemá Yisrael, Ad-nai Elohenu,, Ad-nai Ehad” (Escuta, Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um), parece apresentar profunda dificuldade em compreender um Deus que se manifeste de múltiplas formas.
Tal espanto seria legítimo se o próprio Judaísmo não tivesse, ao longo de sua história, através de seus sábios, produzido tantas e tão ricas especulações sobre a natureza de Deus, que coincidem profundamente com o conceito trinitário cristão. É evidente que um judeu jamais admitiria enxergar esse assunto desta maneira, principalmente porque todas as doutrinas rabínicas desenvolvidas na Idade Média sempre foram, de alguma forma, reativas ao Cristianismo. Por mais que doa admitir, um judeu devoto convive sempre com o paradoxo de professar uma fé antiga, mas que na verdade, teve seus parâmetros atuais estabelecidos depois do Cristianismo. O verdadeiro fundador do Judaísmo que hoje conhecemos não é Moisés, mas sim o Rabi Akiva, como bem nos lembra esta reflexão:

“Quando os rabinos da Antiguidade reescreveram à sua imagem e semelhança toda a Escritura e a história de Israel, descartando períodos inteiros como se jamais houvessem existido, ignorando trechos extensos de antigos escritos judaicos, inventando novos livros para o cânone do judaísmo, fizeram mesma coisa que condenavam em Jesus: modificaram o que tinham recebido, à luz do que se propunham a oferecer” (Jacob Neusner, in Jews and Christians: The Myth of a Common Tradition, página 102).

Tendo por base o fato de que o Judaísmo ortodoxo dos dias atuais é uma religião inteiramente reativa, e neste sentido, dependente, do cristianismo, cabe analisar desapaixonadamente algumas das mais conhecidas refutações judaicas ao cristianismo, tendo por base algumas de suas mais caras reflexões sobre a natureza de D-us e do Messias.

1 – O Messias é um ser humano comum, sendo inaceitável a doutrina do Messias como co-existente com Deus:

Bem, o Judaísmo convive com o dilema de um de seus rabinos, rejeitado pela tradição vencedora, ter afirmado: “A alma do Messias foi criada pela vontade de Deus. Essa alma existia antes da criação do mundo”. Trata-se de Jacó Frank, no livro “Tratado sobre os Dragões”.

2 – O Espírito Santo é uma invenção teológica.
Bem, o fato é que o Espírito Santo cristão pode encontrar seu paralelo judaico na figura da Shekhinah. O livro “The Sages (Os Sábios)”, de Ephraim Urbach, traz uma análise esclarecedora. Para os grandes rabinos do passado, segundo Urbach, Shekhinah não tinha existência própria, sendo parte de D-us, ou seja, a presença de D-us no mundo (exatamente como o Espírito Santo cristão). Mas essa visão foi sendo modificada no século XI, quando surgiram referencias a Shekhinah como tendo personalidade própria (Exatamente como o Espírito Santo). Na verdade, o Judaísmo vai muito mais longe que os cristãos ao atribuir à Shekhinah um caráter feminino. Na prática, Shekhinah tornou-se a “deusa” do Judaísmo, algo que jamais seria encarado com naturalidade pela ortodoxia cristã com relação ao Espírito Santo (muito embora alguns moderninhos queiram dar algum significado para o fato de Ruach há Kodesh, o nome do Espírito Santo em hebraico, ser um substantivo feminino). Para os cristãos, Deus não pode ser considerado “masculino” ou “feminino”, pois tais designações pertencem ao universo da Criação, não do Criador.

3 – Conceituar Deus como possuidor de três “personas” é Avodá Zará (pecado de idolatria)
Alguns judeus convivem com o paradoxo de condenar a Doutrina da Trindade cristã enquanto preferem ignorar o fato de que no chamado “Livro do Esplendor” (Zohar), veremos várias e várias especulações a respeito de Deus, cujo caráter é analisado com base naquilo que o livro chama de “divisão tripartite da alma”: nephesh, ruach e neshamah., justamente três “personas”, “manifestações” do caráter de D-us, a exemplo do que preconizara Tertuliano em seu desenvolvimento da Doutrina da Trindade.

Este fato deve nos atentar para aquilo que os sábios rabinos signatários da declaração “Dabru Emet” já manifestaram, a despeito da contrariedade da maioria dos judeus ortodoxos da atualidade: cristãos e judeus adoram o Mesmo Deus, e apesar de vivenciaram tradições separadas pela cultura e pela história, em ambas as tradições é possível encontrar fragmentos coincidentes da mesma Verdade, que aponta para um Deus multiforme, Uno, e também para a pessoa divina de Jesus.

2 comentários:

Carlos André disse...

"O judeu devoto (...) parece apresentar profunda dificuldade em compreender um Deus que se manifeste de múltiplas formas"
Vai por mim, não só o judeu devoto.

E apresentar deus como três não é exatamente um pecado de idolatria, e sim um diagnóstico divino de esquizofrenia...

Lyon disse...

bela explanação de pensamentos Cláudio